Êta Avenida Boa 

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O que separa as duas grandes avenidas da Zona Norte de São Paulo

Por Beatriz Carmo, Gabriela Silva e Julia Figueiredo

José Caetano Filho sabia que, em dias alternados, a Prefeitura da capital paulista recolhia os entulhos da praça que havia se tornado ponto para descarte irregular de lixo. Ele usou essa informação a seu favor. Assim, como previsto, logo pela manhã, os resíduos foram levados da praça Regina Célia Bono, na Zona Norte de São Paulo. À tarde, aproveitando a limpeza, Caetano Filho acrescentou ao local pneus com mudas de árvores. Na percepção desse paisagista informal, os moradores da região pensariam que a ação teria sido conduzida pela Prefeitura e não com o cidadão com quem tinham arranjado intriga.

Há nove anos, José Caetano Filho, 53 anos, chamou a atenção dos residentes locais para o cuidado da referida praça, lugar onde seria seu novo escritório de trabalho. Desempregado, ele decidiu tornar-se autônomo e vender espetinhos e bebidas na movimentada pracinha, em meados de 2016. Percebendo que um comércio de alimentos em um lugar cercado pelo descarte de lixo irregular espantaria seus clientes, Caetano tentou conversar com os moradores a respeito. A resposta deles, entretanto, não foi positiva. Ficaram incomodados com o novo comerciante, que, recém-chegado, queria tirar dali o local já estabelecido para descarte de entulhos.

Natural de Sergipe, Caetano veio para São Paulo aos 17 anos. Desde então, ele é morador da região onde escolheu abrir o comércio de alimentos. Ele conta que, apesar de ter seu empreendimento há nove anos, o negócio “deu certo” de 2022 para cá. A praça que passou a ser seu local de trabalho fica ao lado de sua casa. Localizada na Vila Palmeiras, é bem arborizada, grande o suficiente para caber sua barraca de espetinhos e ter um bom espaçamento entre as mesas e cadeiras. É cercada pelo vivo movimento derivado das diversas residências ao redor, da quadra pública próxima, onde facilmente se encontram jovens jogando futebol pelas tardes, do posto de saúde e da Av. Inajar de Souza.

A Avenida Inajar de Souza é uma das grandes avenidas da Zona Norte da capital paulista. Com sete km de extensão, interliga importantes distritos da região. Em 2017, a Prefeitura de São Paulo realizou sua última ação quanto ao descarte de lixo na Inajar. O programa “SP Cidade Linda” promoveu um serviço intensivo de limpeza por toda sua extensão, além da revitalização de praças e ações de educação ambiental.

Hoje em dia, oito anos após o serviço, a região carece de cuidados e incentivos ambientais por parte do governo. Caetano, o comerciante da praça Regina Célia, conta que, para mantê-la limpa, deve realizar sua limpeza em dias intercalados, ou então estaria suja como as outras ao redor. Para ele, “o culpado disso são os próprios moradores, que jogam lixo em qualquer lugar”, diz, enfatizando o fato de que, por ser uma avenida de alto acesso, boa parte do lixo produzido é descartado nela, sendo tanto por quem mora na região quanto por quem transita de carro por ali.

 

Pelas suas redes sociais Instagram e Facebook, o jornalista Guilherme Fuoco cobre diversas questões do bairro do Limão, o qual, assim como a Av. Inajar, faz parte da Subprefeitura Casa Verde/Cachoeirinha/Limão. Responsável pela exposição de assuntos desfalcados pela mídia tradicional, Fuoco destaca diferentes temáticas, incluindo as ambientais. “O maior impacto da falta de cuidado ambiental da nossa região é o tanto de lixo pelas ruas”, indica, o que influencia, de acordo com ele, no aumento de pragas, como escorpiões e ratos. Para o jornalista, “a questão ambiental não é levada a sério pela sociedade”, critica. Ele destaca, ainda, que, em relação à educação ambiental e sustentável, “educar os adultos é com certeza um desafio”.

Outro assunto de destaque, ainda na agenda de meio ambiente/sustentabilidade, é a falta de infraestrutura. Na avaliação de Fuoco, “o que mais me chama a atenção é a falta de estrutura ambiental. O bairro do Limão não tem um parque, por exemplo. Temos somente pequenos locais, pequenas áreas verdes”, aponta. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, em dados de 2022, o território da Subprefeitura Casa Verde/Cachoeirinha/Limão conta com 156 praças e mais de 200 mil metros quadrados de áreas verdes. Entretanto, sob o cuidado da prefeitura, a Inajar, apesar de possuir dezenas de praças ao seu redor, nota-se que são descuidadas e que se tornam, muitas vezes, pontos de descarte de lixo por toda a extensão da avenida.

Área verde, alto padrão e gentrificação

Por outro lado, entre o bairro de Santana e Casa Verde, a Avenida Brás Leme, com 8 km de extensão, exibe áreas verdes e praças com alto padrão de cuidado. Diferentemente da Inajar, que fica sob cuidados públicos, o órgão responsável pelos cuidados da Brás Leme é a Totvs, a maior empresa de tecnologia do país. Chegada ao bairro em 2017, a Totvs mantém um Termo de Cooperação com a Prefeitura de São Paulo, tornando-se responsável pela manutenção e limpeza da área central da avenida. A empresa oferece aos cidadãos da área brinquedos infantis de qualidade, organização e limpeza, fatores que influenciam na percepção de qualidade de vida e segurança aos que vivem na região.

O economista Evandro Ramos, especializado em ESG, práticas empresariais que visam o fomento de ações sustentáveis e sociais, explica a natureza do termo de cooperação. “Esse é um tipo de contrato chamado PPP (Parceria Público Privada), em que o ente público cede áreas para que a iniciativa privada cuide. Tal iniciativa funciona, pois o poder público economiza com zeladoria, como com mão de obra e materiais, e a empresa ganha com exposição de marca e publicidade”, comenta Ramos. Entretanto, o especialista frisa ser importante que esses novos serviços oferecidos por instituições privadas não deixem de ser de graça para a sociedade – para que nenhum cidadão seja excluído em seu acesso.

As duas distintas avenidas mostram um cenário urbano contrastante. De acordo com o site imobiliário ZN Imóvel, no bairro de Santana e Casa Verde, a Avenida Brás Leme possui o m² no valor aproximado de R$7.600,00, oferecendo aos cidadãos ciclovias arborizadas, restaurantes e lojas sofisticadas. Já a Avenida Inajar de Souza, no trecho do bairro Cachoeirinha, apresenta o valor do m² entre R$2.700,00 e R$7.400,00 e, marcada pela desigualdade, tem poucas áreas de lazer de qualidade, falta de segurança pública e sobra sujeira em suas vias e imóveis desvalorizados. Embora ambas as avenidas tenham sido

alvo de investimentos públicos, seus resultados revelam um impacto distinto em seu processo de gentrificação.

De acordo com a Enciclopédia de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, “o termo refere-se a processos de mudança das paisagens urbanas, aos usos e significados de zonas antigas e/ou populares das cidades que apresentam sinais de degradação física, passando a atrair moradores de rendas mais elevadas”. Na região da Avenida Brás Leme, em Santana, fatores que contribuíram para tal processo foram a presença de empresas tecnológicas, como a Totvs, hospitais particulares, áreas verdes, supermercados e comércios de alto padrão, os quais impulsionam seu desenvolvimento e atraíram investimentos e um aumento no fluxo de pessoas. “De 15 anos para cá, mudou muita coisa. Antes era mais abandonada, isolada, era só uma avenida de passagem, e agora, está bastante movimentada”, explicou Mário Seguchi, 60 anos, médico, residente do bairro Santana e frequentador da Avenida Brás Leme há 12.

Em compensação, a Avenida Inajar de Souza ilustra a desigualdade urbana, quando comparada à Brás Leme. “Hoje, temos um problema sério, que são os moradores de rua. Eles saíram do centro e foram para outros bairros, e a Inajar acabou sendo uma das locações para eles”, declara Fernanda Oliveira, 41, agente de saúde, moradora da região durante toda sua vida. Oliveira destaca como a região já foi muito boa, entre oito e dez anos atrás, mas que, hoje, está insegura e insalubre. “A rua tem muitos ratos e baratas, muita sujeira, lixo e até mesmo fezes humanas”, sendo esses últimos vistos por ela como resultado da alta presença de moradores de rua. Residente há 40 anos, Oliveira viu a evolução urbana da região, ou seja, o crescimento de seus comércios, recapeamento dos asfaltos e a implementação das ciclovias antes inexistentes.

Fator que ilustra também a desigualdade entre as avenidas é a qualidade entre os serviços oferecidos ao público, como suas ciclovias. Ambas apresentam espaços para ciclistas, porém, residentes da Inajar de Souza evitam utilizá-la, devido ao medo e à falta de higiene. “Não conseguimos desfrutar dela, porque lá estão os moradores de rua dormindo com suas barracas, além da falta de segurança”, diz Fernanda Oliveira. Na Brás Leme, por outro lado, vê-se aspectos diferentes aos que pedalam e correm por ela. Neuda Santos, 60, fisioterapeuta, corredora há 20 anos, explica que corre em tal ciclovia porque gosta da área verde ao redor, assim como aprova a segurança do local. Em contraponto, ela também aponta a necessidade de mais opções aos moradores. “Fico insatisfeita com elas, acho que falta alguma coisa”, observa.

Entretanto, tais diferenças econômicas não são somente visíveis entre as duas áreas distantes. Na região da Av. Brás Leme, encontram-se discrepâncias, pois o próprio bairro de Santana é marcado por desigualdades econômicas, com uma concentração de alta renda nas partes altas, como Alto de Santana, e pobreza nas partes baixas, como próximo ao Carandiru, de acordo com o economista Evandro Ramos. Ele explica, ainda, que “nas partes de alta renda, o bairro é limpo, arborizado e bem servido de instrumentos públicos, como a pista de caminhada da Brás Leme. Já na parte de baixa renda, o acesso à área verde, a computadores, esportes e serviços públicos básicos, como banheiros públicos, acontece exclusivamente por meio do Parque da Juventude”, sendo esse o único da região Carandiru e de seus arredores.

 

Segurança pública 

Na Av. Inajar de Souza, o medo se tornou parte do dia a dia. A moradora Fernanda Oliveira conta que a insegurança aumentou nos últimos anos. Devido ao fluxo oferecido pela avenida, “é o pessoal de bicicleta que passa e rouba”, declara. Ao longo dos anos, a casa de Oliveira já foi assaltada tantas vezes, que ela afirma nem saber a quantidade exata. “Minha mãe até parou de trabalhar por causa disso”, diz. Ela relata que, em um dos casos, os criminosos usaram um caminhão de mudança: “encostou um caminhão e levou tudo, geladeira, fogão, micro-ondas… todos os móveis”. Apesar disso, a mulher demonstra apego ao lugar onde cresceu: “é seguro? Não, não é seguro, mas a gente se sente em casa”, afirma.

Por outro lado, a Avenida Brás Leme apresenta uma percepção de segurança maior, impulsionada pelo desenvolvimento e pela infraestrutura da região. Mário Seguchi observa que a avenida se tornou “um lugar onde nos sentimos até mais seguros”, embora reconheça que melhorias ainda sejam necessárias. A sensação de segurança na Brás Leme é reforçada pela presença da Base Comunitária da Polícia Militar, de n° 2145, na própria avenida. O ponto estratégico contribui para uma maior sensação de segurança entre moradores e passantes, fato reafirmado por Milton Augusto Souto, vendedor de água de coco na Brás Leme há 23 anos. “Aqui eu nunca tive problema de assalto, particularmente”, afirma, reforçando o impacto positivo pela presença da Base Policial.

No outro extremo do distrito de Santana, a realidade se opõe ao que é presenciado na Brás Leme. O Parque da Juventude, localizado no Carandiru, apresenta dificuldades quanto à temática. Alexandre Silva, 43, segurança há três anos do grande parque da região, esclarece que o principal desafio enfrentado não são os assaltos armados, mas os furtos. “Eles passam de bicicleta e acabam levando celulares”, diz. Além disso, Silva destaca a proximidade de cinco albergues para moradores de rua e uma comunidade próxima como fatores que contribuem para a dinâmica do furto, já que os criminosos fazem uso desses lugares como rotas de fuga. Apesar desse conhecimento, o profissional lamenta ao reconhecer que “o nosso perímetro se restringe ao parque, não temos como fazer mais nada”.

Muito devido à carência de estruturas e serviços governamentais, a população se mobiliza para possíveis mudanças em seu meio. O Instituto Vid’Art é um exemplo disso, com um de seus projetos promovendo conscientização à sustentabilidade para todas as faixas etárias e ações de limpeza urbana na Zona Norte. Na Av. Inajar de Souza, o comerciante da praça Regina Célia, José Caetano, afirma ter feito um pedido de avaliação a uma das árvores, mas até hoje não obteve resposta. “Fiz um pedido para eles virem avaliar ela, porque trabalho debaixo dela. Deram de dois a três meses, e já faz cinco meses que não tenho resposta”. A desigualdade das infraestruturas e dos cuidados às distintas regiões da Zona Norte reflete o histórico socioeconômico dos bairros, com diferentes aspectos de sua gentrificação, assim como a falta de atenção por parte dos órgãos públicos em alguns deles.