Jardim Pantanal – Uma “zona de sacrifício” na zona leste de São Paulo

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Há décadas reconstruindo vidas a cada enchente, moradores do Jardim Pantanal desafiam a lógica da negligência estatal por meio de movimentos populares que buscam transformar o destino de uma região marcada por promessas inacabadas

Por Ana Júlia Doimi, Iara Mendes e Rafaela Vernaglia

 

Edileuza Borges não sabe ao certo quantas vezes recomeçou. Sabe que perdeu geladeira, perdeu sofá, perdeu roupa. Sabe bem como a água sobe, leva, e, depois disso, a vida exige ainda mais esforço para juntar o que sobrou. “Aqui a gente perde imóveis, perde tudo. Quando a enchente vem, torna levar. Então a gente torna trabalhar para comprar outras coisas. É assim”, diz. O que ela descreve é a rotina que enfrenta há 39 anos no Jardim Helena, zona leste de São Paulo a tarefa de quem aprendeu a existir dentro de um ciclo que o poder público nunca quis, de fato, interromper.

Edileuza aponta, na parede de sua casa, até onde a água chega em época de chuva (Ana Júlia Doimi)

O Jardim Pantanal, comunidade dentro do Jardim Helena, poderia ter sido outra coisa. Nos anos 1970 e 1980, enquanto São Paulo espalhava suas indústrias para a periferia e o governo estadual planejava um polo industrial na zona leste, havia também a intenção de incorporar um projeto habitacional com casas e infraestrutura, um plano ideal de crescimento urbano. O programa industrial avançou. O habitacional ficou no papel. As pessoas que foram trabalhar nas fábricas precisavam morar perto, e foram, como sempre vão os que não têm outra escolha: sem escritura, sem saneamento, sem o Estado. Ocuparam a planície do Rio Tietê, a área que os rios reservam para si nos períodos de cheia, e ali ficaram. Hoje, décadas depois, o mesmo governo responsável por não regularizar aquelas moradias diz que precisa removê-las e manda a conta para quem menos tem condições de pagá-la.

Caique Sanches Bodine, pesquisador do LabCidade da USP, acompanha o Jardim Pantanal há quase um ano. Para ele, está claro que o cenário no Jardim Pantanal é derivado das escolhas do poder público. “As pessoas não moram na zona leste, longe do trabalho, por acaso. Existe uma política consciente, estabelecida, que gerou esse tipo de contexto urbano”, diz. Desde o alagamento de 2025, Bodine faz pesquisas etnográficas no bairro, participa de reuniões, acompanha manifestações e leva demandas da comunidade até a Câmara Municipal.

Para o pesquisador, o Jardim Pantanal é um exemplo acabado do que a literatura chama de “zona de sacrifício”, um lugar onde a cidade deposita o que não quer ver – a indústria poluente, o presídio, a escavação de areia – e onde, não por coincidência, vive quem menos tem condições de recusar essas circunstâncias. “A indústria polui, eu tiro do centro e ponho na periferia da zona leste. Vou acumulando diversas atividades indesejadas para outras partes da cidade e começo a sacrificar essa população em prol de um interesse”, resume.

Córrego a céu aberto reune dejetos (Ana Júlia Doimi)

O que o pesquisador encontrou no trabalho de campo desafia também o mito do abandono. O Estado está presente no Jardim Pantanal desde sempre, só que de um jeito diferente do que chega ao resto da cidade. Ele é visto através da empresa contratada para remover as moradias, pelo acordo com o agente local, pelo laudo da Defesa Civil. Essa arquitetura, segundo o pesquisador, não é neutra: a Defesa Civil mapeia risco apenas em ocupações informais. A enchente responsável por arrastar carros no Beco do Batman, na Vila Madalena, área rica da cidade, não produz remoção, mas a do Jardim Pantanal, sim. “Os moradores me perguntavam: se a gente é área de risco, vão remover o pessoal de Pinheiros também?”. A pergunta não é retórica. É a linguagem de quem aprendeu que o risco, como tudo na cidade, é socialmente produzido e distribuído de forma desigual.

A disparidade nas ações de infraestrutura do poder público explica contraste entre a região do Beco do Batman e o Jardim Pantanal. Embora o problema geográfico de drenagem insuficiente e alagamentos recorrentes seja similar em ambas, o fluxo de investimentos públicos reflete a assimetria das respostas da administração municipal. Enquanto os moradores do Jardim Pantanal aguardam soluções estruturais há décadas, o Beco do Batman, de relevância turística e econômica para a zona oeste, conta com cronograma de obras ativo e projetos de requalificação em andamento.

Entre as intervenções previstas para a área turística estão a implantação de seis jardins de chuva, reformas nas calçadas para acessibilidade, readequação do piso de paralelepípedos, melhorias na circulação de pedestres e a modernização do sistema de drenagem local.

O contraste histórico no extremo da zona leste, onde está o Jardim Pantanal, é marcado por promessas inacabadas. Após grandes enchentes em 1997 e 2009, o poder público anunciou obras de infraestrutura para a região, mas ambas não saíram do papel. Atualmente, a gestão do prefeito Ricardo Nunes propõe mudanças com o projeto Recupera Pantanal. A proposta prevê, na primeira fase, a retirada de mil residências do local e a construção de uma barreira que impede novas ocupações próximas ao rio. A previsão de encerramento completo é de 2029 e a primeira fase, em outubro de 2026.

Materias das obras públicas ocupam as ruas do Jardim Helena Bandeira do MCP na porta do espaço de reuniões que o grupo se reune (Ana Júlia Doimi)

As retiradas das famílias parecem uma solução imediata, porém suas consequências geram impactos profundos a longo prazo. “As remoções significam quebrar vínculos, porque a moradia não é só uma edificação, a moradia é um conjunto de laços que você constrói”, diz Bodine. Essa transferência abrupta coloca os moradores em locais completamente desconhecidos, obrigando-os a reconstruir a vida do zero e a lidar com despesas muito maiores. “Ganham um apartamento, não conseguem se manter e vão para outra favela”, afirma Bodine.

José Neto, 69 anos, chegou à região do Jardim Pantanal em janeiro de 1993 e, dois meses depois, em março, enfrentou sua primeira enchente. A partir desse momento, ele e a esposa se conectaram com as mobilizações da população local. Desde então, Neto seguiu na frente de lutas e foi um dos fundadores do Movimento das Comunidades Populares, o MCP. Ele compreendeu cedo que, para o bairro ter acesso a direitos fundamentais triviais em outras regiões, seria necessária uma resistência incansável. “Todo mundo sabe que os governos priorizam os centros, o lugar dos ricos. O pobre é o último a ser atendido e aí depende da mobilização. Se depender da vontade espontânea do governo pra vir fazer algo, nada acontece, não vem”, afirmou Neto.

Bandeira do MCP na porta do espaço de reuniões que o grupo se reune (Ana Júlia Doimi)

Diante desse cenário de omissão do poder público, a mobilização dos moradores foi além. Foi instalada na Câmara Municipal de São Paulo a CPI Pantanal, uma Comissão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar as causas e buscar soluções para as enchentes, alagamentos e inundações. Em suas reuniões, a comissão convoca e ouve representantes de diferentes órgãos e empresas que atuam na área. Entre eles estiveram técnicos da Cetesb, representantes da Sabesp e funcionários de outras instituições ligadas ao meio ambiente e ao saneamento da região, além de especialistas que apresentam análises técnicas sobre o problema. Os depoentes são convocados para prestar esclarecimentos, e os vereadores integrantes da comissão questionam cada um deles com o objetivo de identificar responsabilidades e construir propostas para reduzir os impactos das enchentes.

Zélia Andrade, líder do movimento Povo Pelo Povo e moradora da Chácara Três Meninas, região norte do Jardim Pantanal, é uma das vozes que ecoam com mais força no bairro. Com assento e direito de fala nas audiências da Câmara Municipal, ela ajuda a comunidade a escrever pautas, transformando suas reivindicações em denúncias diretas contra o desrespeito. Sua relevância, no entanto, tem seu preço. Andrade diz ter sido vítima de diversas ameaças que tentam silenciá-la. “Mesmo sendo ameaçada, eu penso da seguinte forma: Ameaçado nós estamos o tempo todo”, diz Zélia.

Os ataques partem justamente de quem busca benefício próprio, o que seria o perfeito oposto dos movimentos da líder, que ergue a bandeira de uma luta voltada ao bem coletivo. “Ninguém chuta cachorro morto… Se tiver alguém te atacando muito, você pode ter certeza de uma coisa: o que você está fazendo é muito importante e tá incomodando muito essa pessoa ou essas pessoas”, afirma Zélia. Para ela, sua vontade de fazer a diferença é o que a faz permanecer na luta do Jardim Pantanal.