A resistência Guarani no Jaraguá

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Há 37 anos esperando pela demarcação plena de suas terras, cerca de 800 indígenas vivem em sete aldeias na zona norte de São Paulo, preservando cultura, língua e espiritualidade em meio à metrópole.

Por Gabriela Santos, Mariana Hussni e Melissa Rafaela

No alto do Pico do Jaraguá, em meio ao ronco da Rodovia dos Bandeirantes e à névoa da poluição da maior cidade do Brasil, vivem cerca de 800 indígenas. Durante décadas, os moradores das sete aldeias localizadas ali viveram em uma das menores terras indígenas do Brasil, de apenas 1,7 hectares, o equivalente a pouco mais que um campo de futebol. Por 37 anos, lutaram para mudar essa situação. Nos últimos dois anos, as coisas começaram a mudar, mas o caminho é longo.

A primeira vitória veio em outubro de 2024, quando o Ministério da Justiça e Segurança Pública assinou a portaria declaratória que restaurou aos indígenas a posse de 532 hectares, o equivalente a 760 campos de futebol. Em maio de 2025, veio a segunda vitória: um acordo inédito entre o governo federal, o governo do estado de São Paulo e a Fundação Florestal, órgão público para conservação das florestas do Estado de São Paulo, delimitou fisicamente a área e autorizou o uso e a gestão compartilhada com o Parque Estadual do Jaraguá. O processo de demarcação segue em andamento: ainda faltam a homologação da Presidência da República e os registros em cartório e na Secretaria de Patrimônio da União (SPU).

O reconhecimento não serviu para reverter a situação precária a que os indígenas do Jaraguá foram submetidos. Na parte mais alta da região fica a aldeia Tekoa Pyau, que historicamente esteve em situação jurídica irregular, sem reconhecimento legal pleno para seus moradores. Michael Tupã, de 34 anos, cacique da aldeia, descreve o cotidiano com frustração. “Até tem saneamento, mas funciona muito mal. Tem um registro e a água é paga pela Secretaria da Saúde Indígena, da Funai. Mas muitas vezes quebra o cano, e quem vai arrumar? Às vezes a água fica desperdiçando, os banheiros estão sem caixa de esgoto, e tudo fica desativado, não tem reforma ou manutenção. E quando acaba a água a gente não sabe com quem contar.”

Na aldeia, as casas são de madeira, bem próximas umas das outras. Há ali muitas famílias para um território pequeno. Os caminhos de terra mostram que, quando chove, tudo vira barro. Qualquer reforma exige autorização prévia da Funai ou do governo. O espaço ainda está repleto de cães e gatos, abandonados por pessoas de fora, que acabaram sendo deixados dentro do território indígena. As mudanças climáticas agravam esse quadro: alterações nos regimes de chuva, frio e calor modificam os ciclos da natureza, prejudicando rituais e ações coletivas do cotidiano que dependem de elementos da terra e do tempo.

Michael Tupã e sua filha em frente à casa de reza (Gabriela Santos)

Para Spensy Pimentel, antropólogo, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e pesquisador das culturas Guarani, a questão territorial é urgente para os indígenas. “É essencial, para as culturas indígenas, essa discussão sobre os territórios. É no território que elas conseguem efetivamente florescer, é o lugar onde eles conseguem exercitar todos esses saberes ancestrais que constituem aquilo que a gente chama de cultura indígena. Atacar o território é atacar as culturas”, afirma.

Pimentel lembra que os colonizadores já sabiam disso: há registros históricos de como, ao não conseguir derrotar militarmente povos indígenas do norte de Minas Gerais, os colonizadores passaram a desmatar progressivamente as florestas onde viviam, uma estratégia de destruição cultural pela destruição ambiental.

No Jaraguá, esse histórico se repete de forma mais silenciosa. Por décadas, o território foi ocupado por um cafezal de espécie não-nativa, sofreu desmatamento com a construção de chácaras e recebeu despejos de lixo. Tudo isso prejudicou o solo, impedindo o cultivo de alimentos sagrados Guarani, como milho, mandioca e amendoim, criando uma dependência de alimentos industrializados.

Eduardo Sales, jornalista e pesquisador na área antropológica, salienta que esse processo deixa marcas profundas nos indígenas. “Do ponto de vista espiritual, os Guarani afirmam que é preciso saber a origem da comida, pois cada alimento tem o seu dono espiritual, o seu ija. Assim, quando não se sabe a sua origem, sobretudo quando se trata de alimentos industrializados, corre-se o risco de tornar-se enfraquecido, o corpo e o espírito”, explica.

A Terra Indígena Jaraguá conta com uma escola antiga, que está interditada por rachaduras. Construída para cerca de 30 crianças, hoje precisaria atender mais de 534 alunos. Um novo projeto foi solicitado para o espaço onde funcionava o campo de futebol. A obra, prevista para ser concluída em um ano, está prestes a completar quatro anos sem término.

A UBS localizada em frente à aldeia não é gerida por indígenas, mas conta com agentes de saúde indígenas que visitam as casas. Para casos que excedem sua capacidade, parte da comunidade recorre à região do Perus ou aos remédios preparados pelo pajé. Nas proximidades, há locais onde se queima lixo. No frio, moradores queimam roupas e outros resíduos, o que afeta diretamente a saúde das crianças.

Enquanto isso, a demora na homologação trava projetos concretos. “A demarcação de terras é o pilar mais importante para todos os povos indígenas do Brasil”, afirma Chirley Pankará, indígena do sertão de Pernambuco e eu foi gestora do Centro de Educação e Cultura Indígena (CECI) Jaraguá por oito anos. Para ela, é o território que garante desde a educação diferenciada até a prática livre das cerimônias.

“Se você tem um território demarcado, você tem ali a sua educação diferenciada, composta pela equipe educacional daquele território, com a língua materna, com seu material específico, com todas essas garantias de direito de preservação de costumes”, explica.

O CECI Jaraguá é um dos pilares da preservação cultural local. Voltado a crianças de 0 a 6 anos, conta com professores Guarani que ensinam artesanato, respeito ao meio ambiente e a língua guarani. O idioma, aliás, é tratado como elemento vivo e prioritário.

Os mais velhos, os xeramõi e as xejary’i, são os guardiões da palavra. Algumas lideranças, como o xeramõi Hortênsio, não falam português. Não é que não saibam: não falam porque fazem questão de alimentar a língua, inclusive na presença de não-indígenas, gerando oportunidades constantes de aprendizado para os jovens.

Spensy Pimentel destaca o papel insubstituível dessas figuras: “Diferentemente do que acontece em nossa sociedade, em que os idosos são desvalorizados, nas culturas indígenas é isso: sem os idosos, simplesmente a cultura tem muitos problemas. A cultura é completamente ancorada, completamente construída a partir dessas sabedorias dos mais velhos. São fundamentais.”

Existe ainda o Programa Aldeia, parceria com a Prefeitura de São Paulo, voltado ao trabalho ambiental e ao fortalecimento da cultura. Há visitas à casa de reza, cânticos, encontro de pajés e plantio de sementes tradicionais. Michael Tupã descreve os rituais que mantêm viva a espiritualidade do povo: o batizado de água sagrada, realizado uma vez ao ano, entre os dias 24 e 25 de janeiro; o momento de receber o nome em Guarani, a partir de 1 ano de idade; a celebração da erva-mate, duas vezes por ano; e o ano novo Guarani, entre os dias 14 e 15 de agosto. “O nome está associado ao espírito da pessoa”, explica o cacique.

Eduardo Sales chama atenção para dimensões da resistência Guarani que podem passar despercebidas: “É o próprio modo de vida Guarani que representa essa resistência. Muitos moradores frequentam as Opy, Casas de Reza, para vivenciar o seu momento íntimo consigo e as divindades. Há também a prática do compartilhamento dos sonhos, algo fundamental na cultura Guarani que ajuda as pessoas a refletirem juntas os significados do que foi sonhado. E o tempo no território indígena é vivido de forma bastante diferente da correria da cidade. Respeita-se menos o tempo do relógio e mais o tempo do corpo, dos ciclos do dia e da noite.”

A organização sócio-política também é apontada como fator de fortalecimento. Existe um conselho de lideranças da Terra Indígena, mas há também muitas outras pessoas, homens e mulheres, consideradas lideranças nas aldeias: pessoas à frente de projetos específicos, como Márcio Boogarin na meliponicultura, Tamikuã Txihi no artesanato, e aqueles que trazem consigo uma espiritualidade vista como referência pelos mais jovens. Essa diversidade de lideranças, como destaca Eduardo, fortalece toda a comunidade.

A relação com a Funai mudou de forma drástica ao longo dos anos. Michael Tupã relata que o sentimento é de que a instituição deixou de existir para eles por volta de 2010. Antes havia apoio; hoje, quando surge um conflito, não há intermediação, o embate se torna direto com a polícia ou o conselho tutelar.

A resistência jovem

Os jovens, no entanto, emergiram como a principal força de resistência. Shirlei Araju, de 16 anos, moradora da aldeia, fala sobre o preconceito que enfrenta cotidianamente: “Quando as pessoas veem que temos celular, dizem que perdemos a cultura. A gente usa as redes sociais justamente para manifestar e divulgar a cultura indígena”, afirma.

O estereótipo é uma das formas mais persistentes de violência simbólica contra os povos indígenas. Eduardo Sales é direto ao apontar sua função: “O estereótipo indígena alimentado por setores da sociedade serve justamente como instrumento de tentativa de controle sobre os povos indígenas no geral”, afirma. “As cosmologias dos povos originários têm raízes, mas estão em constante movimento, em diálogo com a realidade que se apresenta. Isso não significa que o acesso ao celular, os trabalhos audiovisuais ou o uso do dinheiro os afastem de seus modos de vida”, diz.

A pedagoga e doutora em antropologia Chirley Pankará reforça: a ideia de que indígenas que acessam tecnologia ou ingressam em universidades perderiam sua identidade coloca os povos indígenas “num lugar de atraso” e deslegitima saberes baseados em cosmologias diferentes, ancestralidades e memórias. “Isso ainda é uma barreira que a gente luta para banir”, reforça.

Chirley também destaca a força da juventude Guarani, que encontrou nas redes sociais e na música novas formas de resistência. “Os jovens mantêm a tradição oral, mantêm a língua materna, mantêm ainda as partilhas na casa de reza, as cerimônias tradicionais”, diz. “Há os influenciadores indígenas, os rappers indígenas que cantam na língua, que levam a voz, a luta por meio da música”, completa.

Michael Tupã acrescenta ainda que muitos indígenas precisam conciliar o estilo de vida tradicional com atividades “modernas”. “Muitos de nós trabalham à noite, fazem curso, a maioria das mulheres também trabalha. Não dá mais para viver como antigamente, só de plantio ou de caça. Não existe mais essa vida.”, diz. A busca pelo teko porã, a bela vida, sobretudo a partir dos ensinamentos dos mais velhos, permanece como sentido fundamental para a comunidade, mesmo em meio ao contexto urbano e capitalista.

As dificuldades na região são grandes, porém. Parte das famílias recebe o Bolsa Família, auxílio do governo federal para a baixa renda. Outra vive do artesanato, com matéria-prima trazida de aldeias de outros estados, ou participam do Programa Operação de Trabalho (Pote), voltado à agricultura e ao remanejamento de plantios.

A ameaça do marco temporal

No plano jurídico, a ameaça permanece. Spensy Pimentel explica que o marco temporal, tese que busca restringir demarcações às áreas efetivamente ocupadas em 5 de outubro de 1988, foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, mas continua sendo reintroduzido no Congresso de diferentes formas pelo lobby ruralista, sobretudo por meio da Lei 14.701, de 2023. “Esse é o vandalismo que estão promovendo em relação aos direitos indígenas”, afirma o pesquisador. No caso específico do Jaraguá, os indígenas já estavam na área antes de 1988, mas pleiteiam também algumas áreas identificadas e delimitadas que não ocupavam efetivamente naquela data. “De alguma maneira, eles podem ser afetados também por essa bagunça legal”, alerta Pimentel.

Aldeia Tekoa Pyau: Indígenas reclamam da ausência do poder público (Gabriela Santos)

Para o professor da Federal do Sul da Bahia, é necessário que a sociedade procure conhecimento sobre os povos originários: “A gente precisa que as pessoas deixem de conhecer os povos indígenas simplesmente de orelhada”, diz. “São Paulo é um dos estados que tem maior número de etnias indígenas. Às vezes, as pessoas têm tanta curiosidade para ir à Disneylândia e não têm curiosidade para conhecer uma aldeia indígena. Se fossem estimuladas a tentar conhecer pessoalmente esses lugares, essas pessoas, ouvir diretamente da boca delas quais são os problemas que vivem, eu acho que seria muito importante”, afirma.

Para Chirley Pankará, a resistência desse povo vai além da política. “O Guarani é um povo muito forte. É um povo muito resistente. É a resistência daquele lugar, daquele território”, diz. Shirlei Araju, moradora da comunidade, resume o espírito coletivo da aldeia: “Nós somos resistência, é isso que estamos passando para os nossos jovens, se fortalecendo cada vez mais, com pensamento positivo, para que a nossa aldeia permaneça viva.”