Com programação diversa e atendimento humanizado, a maior biblioteca pública de São Paulo impacta trajetórias e reforça seu papel social
Por Ana Júlia Doimi
Uma vida pode ser transformada por uma biblioteca? Pela Mario de Andrade, um dos pilares do centro de São Paulo, sim. “Eu passei a ir para lá só para ficar no silêncio, chorando. Eu pegava os livros, deixava na mesa, chorava e o pessoal da biblioteca me acolhia”, diz Mirella Clerici, de 42 anos, professora e estudante de Direito. A BMA, como a biblioteca também é conhecida, entrou na vida de Clerici em 2002, quando os estudos da faculdade de Pedagogia exigiam muitos livros e ela não tinha condições de adquirir todos eles. Seguindo a sugestão de seu pai, Mirella passou a frequentar a biblioteca. “Passei a frequentar por conta dos títulos que havia lá. Ia pra Mário com o meu caderno, estojo e caneta”.
Nessa mesma época, Mirella passou por momentos de crise pessoal. Diante de uma instabilidade familiar, passou a contar com a biblioteca como apoio emocional, além de acadêmico. Para ela, um local repleto de intelectuais e de pessoas que a ajudavam em suas pesquisas renasceu como um refúgio. “Todas as vezes que eu estava lá chorando eu era acolhida, mesmo eles não sabendo o motivo do choro”, lembra. A atenção dos bibliotecários tinha o poder de acolher Mirella pelo simples fato de mostrar que eles se importavam. Até hoje, ela segue frequentando a biblioteca semanalmente, algumas vezes com a filha de 10 anos.
“Se na biblioteca tivesse uma mudança estrutural muito grande ou se fosse privatizada eu ia chorar”, confidenciou Mirella. É um laço que escancara como um meio público pode ser um agente de transformação.
A Biblioteca Mário de Andrade (BMA), a maior biblioteca pública de São Paulo, conta com um milhão e quatrocentos mil itens. Sua vida centenária a tornou um marco do centro de São Paulo, tendo sido tombada pelo Condephaat e pelo Conpresp, órgãos de proteção ao patrimônio públicos nos níveis municipal e estadual. As gestões que passam pela diretoria da biblioteca enfrentam o dilema entre preservação e modernização. Para a atual diretora, Luiza Thesin, é fundamental mesclar o histórico e o moderno e fazer com que as mudanças convivam visualmente. “É importante que a população e o público da Mário consigam entender que o passado e presente ocupam o mesmo espaço”, diz.

O que não muda na BMA é a buscas pela hospitalidade. “Todos os funcionários da biblioteca recebem um treinamento para ter sempre uma abordagem acolhedora, convidativa e respeitosa com todas as pessoas que passam por aqui”, diz Luiza Thesin, atual diretora da Mário de Andrade “A gente precisa fazer com que quem frequenta continue frequentando e sinta que aqui é o espaço delas”, afirma. Essa atmosfera de atenção é herdada do ideal democrático de Mário de Andrade. Nos anos 1930, ele já sonhava com bibliotecas acessíveis a todos. A instituição foi fundada em 25 de fevereiro de 1925, mas só ganhou seu nome atual em 1960. A homenagem se deve à importância do autor para a história da BMA.
Em agosto de 1937, Mário, que, na época, participava da diretoria da instituição e era um forte entusiasta do projeto, enviou ao prefeito da cidade uma proposta inicial da primeira Biblioteca Popular de São Paulo. Naquele período, a sede da biblioteca estava anexada à Câmara Municipal, com acesso restrito. De acordo com um documento que está preservado na Hemeroteca Mário de Andrade, o artista propôs “criar uma rede de bibliotecas populares por todos os bairros proletários do município.” Se concretizado, a cidade teria hoje um esquema grandioso com a atual BMA como piloto.
O sonho de Mário de democratizar a leitura caminha, entretanto, em direção oposta. No período de 2015 e 2020, o Brasil perdeu ao menos 764 bibliotecas públicas, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP). O Estado de São Paulo é o epicentro desse retrocesso. Nos cinco anos analisados, 538 bibliotecas fechadas estavam em solo paulista, tornando a resistência da BMA ainda mais vital.
A estratégia de permanência da Mário de Andrade passa pela transformação da biblioteca em um centro de convivência múltipla. Gabrielle Carvalho, 44 anos, servidora efetiva há oito anos na BMA, passou boa parte da sua trajetória em contato direto com o público. Ela conta como a instituição busca quebrar o estereótipo de biblioteca pública como lugar silencioso, empoeirado e restrito a livros. Para isso, aposta em uma diversidade de serviços. “Nossa programação cultural é vasta e, com isso, temos o poder de influenciar até aquelas pessoas que não frequentam bibliotecas porque não gostam de leitura pois temos outras atividades, diz.
A biblioteca preenche seu calendário com diversos eventos culturais que ultrapassam o campo literário. Em março de 2026, por exemplo, a BMA ofereceu uma semana de eventos em homenagem ao Dia da Pessoa Bibliotecária.
Uma das atividades feitas no auditório do prédio foi a apresentação da cantora Roberta Oliveira, que cantou o samba paulistano ao som do piano tocado pela artista Juliana Rodrigues. Para ela, cantar São Paulo foi mais uma das várias formas de contação de história oferecidas pela Mário de Andrade.
“Eu canto na rua, no samba urbano e canto nas bibliotecas, porque todo lugar é lugar de samba, todo lugar é passível de cultura”, a cantora.
Histórias como a de Mirella, que aproximou da BMA durante a graduação, continuam a surgir. “A minha história com a Mário começa em 2022, quando eu estava em busca de alguns livros para a faculdade, mas não encontrava em nenhuma livraria e nem site”, diz Jonatas Sena, estudante de História Desde então, ele passou a frequentar o local sempre que possível. Entre suas atividades preferidas está a Feira de Troca de Livros, realizada todo último sábado do mês. “Sempre me incomodaram livros parados na estante com o falso objetivo de ‘um dia vou ler’”, diz. “Acredito que a circulação dos livros muda o cenário de coisas paradas”, afirma, destacando que ali entra em contato com diferentes autores e ideias.
Para Mirella, entre o silêncio das estantes e o movimento de quem chega, a Mário continua sendo mais do que um espaço público: é um lugar de permanência, onde o amparo que um dia recebeu ainda ecoa e onde parte da sua história segue sendo escrita. “Eu tenho na minha vida outras bibliotecas, como a do meu bairro, mas a minha biblioteca do coração, que tem uma importância emocional, é a Mário de Andrade. Ela ajudou a me formar como pessoa”, diz.
