“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” Paulo Freire, em Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Uma reflexão que traz à tona o debate e a situação alarmante sobre o nível de educação no Brasil.
No Jardim Brasil, na Zona Norte de São Paulo, a discussão sobre a qualidade da educação também está presente no cotidiano de professores que atuam na região.
Cria-se uma narrativa de esquecimento e não pertencimento da educação. “A educação, ela está interligada ao cotidiano do bairro, sem dúvidas”. disse Luís Felipe Vieira, professor de geografia, 32 anos, leciona em uma escola privada do bairro.
“Em um bairro com maiores poderes aquisitivos ou com melhores dados populacionais, automaticamente vai refletir na questão da cabeça do estudante, da mente, da parte psicológica, do que em relação a bairros periféricos.” completa o professor. 
Segundo dados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), os índices dentro da rede pública, apresentam uma queda conforme o aluno avança de etapa de ensino.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o indicador alcança 6,1. Porém, nos anos finais, começa a decair para 5, enquanto no ensino médio chega a 4,3, demonstrando uma redução no desempenho educacional ao longo da trajetória escolar.
Nas escolas privadas, os índices são mais elevados em comparação à rede pública. No Ensino Fundamental, o número alcança 7,1. Avançando aos anos finais, chega a 6,4, porém, no Ensino Médio demonstra uma queda para 5,8.
“Vemos uma mudança muito brusca do quinto ano para o sexto. Há uma perda do maravilhamento do aluno em relação ao estudo.” diz Guilherme Franco Dantas, professor de História e Inglês, 28 anos. “A segunda queda, ocorre do nono ao ensino médio. As causas são passíveis de debate, pode ser tanto a parte interna da escola quanto a família.”

Profissional da Educação Guilherme Franco, explica sobre o desnível na educação.
Segundo informações extraídos pela Morada Virtual, com dados atribuídos ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o IDEB do Jardim Brasil é de 5,9, uma média baixa, durante os anos finais, a porcentagem abaixa mais, chegando a 4,5. Já no ensino médio, os números chegam a 3,4, um indicador crítico.
Inúmeras causas podem explicar esse índice tão baixo, podemos citar: falta de motivação, dificuldades financeiras, Bullying/problemas de relação. Porém, um dos motivos mais citados entre os respectivos professores, são ocorridos por problemas familiares: sendo conflitos, falta de apoio familiar e instabilidade emocional.
“Antes de dar uma aula e com a minha didática, eu sempre separo uns minutinhos iniciais, independente se é aluno do Fundamental II ou se é do Ensino Médio, para uma conversa bem aberta, fazer a questão de saber como foi o fim de semana.”, completa Luís.
Um agravante dentro das escolas que vale ser ressaltado, é a falta de estrutura. Segundo dados publicados em 2025, pelo Anuário Brasileiro da Educação Básica, nas escolas públicas, apenas 48,2% apresentam sistema de esgoto e 38,7% possuem salas climatizadas.
Ao ser questionado sobre a estrutura oferecida pelas escolas é suficiente para atender a necessidades dos seus alunos, Guilherme diz “Não, não. Os professores, eles trabalham muito por paixão, por amor, do próprio bolso e com base nos interesses pessoais deles, isso é muito claro.”
Estudos do PISA (Programme for International Student Assessment, em português, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2026, nesta avaliação, é levado em conta: os conhecimentos, habilidades e atitudes de estudantes de 15 anos.
Cerca de 1% dos estudantes brasileiros, obteve um desempenho alto em Ciências. A média é uma porcentagem de 7%, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que é um fórum internacional formado por 38 países, promovendo o crescimento global e ao bem-estar social.
Os testes são cognitivos e investigam como os estudantes conseguem resolver problemas complexos, pensar criticamente e se comunicar de forma eficaz.
Cerca de 28% dos estudantes alcançaram o nível 2 de proficiência em Matemática, considerado o patamar básico de desempenho. O resultado está bem abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 65%. Isso significa que, no Brasil, menos de três em cada dez estudantes atingiram esse nível de conhecimento, enquanto, na média da OCDE, aproximadamente dois em cada três chegaram ao patamar.
Ao serem indagados sobre as principais dificuldades atualmente, ambos os professores concordam que é a forma de prender a atenção do aluno. O estudante está preso ao “querer estar conectado todo instante” e ao uso de Inteligência Artificial dentro das salas de aula. “A necessidade de estar sempre ligado, o uso de celulares, de redes sociais, que é um refúgio para eles.” diz Luís.
Superar os desafios da educação no Brasil, e principalmente, em um bairro como o Jardim Brasil exige investimento, apoio às famílias e valorização dos professores. Ir além da melhora dos índices, é necessário ouvir os estudantes e oferecer condições para que a escola seja um espaço de aprendizagem, acolhimento e transformação social.



