Moradores de Franco da Rocha sofrem com transporte público

Relatos mostram o descaso da Prefeitura com a mobilidade de deslocamento no bairro do Mato Dentro

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Cícera Soares da Silva, que trabalha há mais de 20 anos no Mercadinho Lacorte
Cícera Soares da Silva, que trabalha há mais de 20 anos no Mercadinho Lacorte

“Para ir com os meus filhos ao médico, temos que trazer o guarda-chuva e outros sapatos para trocar aqui”, diz Alexandre Soares das Viges, 58 anos, morador da Estrada João Miguel Ortiz, no bairro Mato Dentro. 

Ele relata que a troca de calçados não é por acaso, como a rua não é asfaltada, a lama é a primeira dificuldade no caminho até o ônibus em dias de chuva. A segunda é a espera pelo coletivo, pois não há um ponto coberto próximo. Sem uma estrutura para se proteger da chuva e do sol, ele recorre ao bar localizado em frente à rua onde mora para aguardar a linha 290, muitas vezes acompanhado dos filhos. 

Operada pela empresa Viação Caieiras, a linha 290 liga o bairro do Mato Dentro a Estação de Franco da Rocha. O ônibus funciona em sistema circular, ou seja, após percorrer o trajeto, retorna ao ponto inicial da linha. 

Em contato com a Prefeitura de Franco da Rocha, Leila Roma, do setor de Recursos Humanos e Comunicação, informou que, entre os dias 18 e 19 de maio em 2026, foi realizada uma pesquisa de satisfação referente à linha 290. O levantamento registrou índice de 79,9%. Foram avaliados aspectos como atendimento, forma de condução dos motoristas, limpeza, cumprimento dos horários e estado de conservação dos ônibus. 

O resultado da pesquisa contrasta com os relatos encontrados pela reportagem nos pontos de embarque. Shirley Gama Ribeiro, 46 anos, mora há três anos no Mato Dentro e acompanha diariamente o filho, Gustavo, até o ponto para garantir que ele chegue à escola em segurança. O local onde espera o ônibus não possui cobertura e, também não há sinal de telefone. 

Em dias de chuva, o guarda-chuva de tamanho grande família tornou parte da rotina. “Queria um ponto mais seguro na chuva, limpeza nos ônibus e responsabilidade com os horários, pois uma hora eles atrasam, outra hora eles não atrasam”, comenta Shirley. 

A situação também interfere na rotina de quem depende do transporte para voltar da escola. Wellington de Oliveira Lima, 18 anos, chegou ao Mato Dentro há seis meses e conta que, muitas vezes, o horário de saída das aulas não coincide com o dos ônibus. Quando isso acontece, o pai precisa buscá-lo de carro. A falta de estrutura também faz parte da rotina escolar, “aqui mesmo onde estou não tem algo para você ficar debaixo, só essa árvore”, diz. 

Segundo Leila Roma, a definição dos horários é feita em conjunto com o órgão gestor responsável pelo transporte público. A programação considera dados como tempo de percurso e demanda transportada em cada viagem. A equipe técnica avalia quantas pessoas utilizam cada linha, os horários de maior movimento e os trechos mais procurados para determinar a frequência das partidas. 

A linha começa a operar às 4h e encerra as atividades às 23h em dias úteis. Para quem trabalha ou estuda após esse período, a ausência de horários pode significar depender de familiares ou de um veículo particular para conseguir voltar para casa. Em alguns casos, até mesmo o transporte por aplicativo deixa de ser uma alternativa, já que moradores relatam dificuldade em conseguir corridas até o bairro. 

A dificuldade com os horários, porém, não é uma reclamação recente. Cícera Soares da Silva, 57 anos, trabalha há mais de 20 anos no Mercadinho Lacorte, no Mato Dentro, e é conhecida pelos moradores da região. “Na hora que eu preciso de ônibus para ir embora para casa, tem dois ônibus que descem no mesmo sentido”, diz Cícera.

O relato de Cícera acrescenta outro problema à discussão, não basta haver ônibus circulando. A distribuição das viagens ao longo do dia também interfere diretamente na rotina de quem depende do transporte. Para ela, a falta de um local coberto para esperar e os problemas relacionados aos horários já fazem parte da rotina há tantos anos que deixaram de ser uma novidade. 

Procurada pela reportagem, a Viação Cidade de Caieiras, responsável pela operação da linha, não respondeu aos questionamentos até o encerramento dessa matéria. 

Õnibus 290, na estação de Franco da Rocha

Enquanto as discussões sobre possíveis soluções para a linha 290 atravessam diferentes gestões administrativas, a Prefeitura de Franco da Rocha afirma que as decisões relacionadas ao serviço levam em consideração a frequência e a demanda de passageiros. A justificativa, no entanto, não se restringe aos horários e aparece diante dos diferentes problemas relatados pelos moradores. Para Alexandre, a questão não está na falta de usuários. “Passageiro tem. É que eles fazem vista grossa”, comenta.