“Eu acordo umas 5h, porque tenho que sair de casa às 5h20. O primeiro ônibus que eu pego é às 5h30, 5h40.”, assim começa o dia do costureiro Rafael Gomes de 21 anos, morador do bairro Torre Tibagy. Seu percurso começa antes das 6h da manhã, onde sai de sua casa e segue até o Terminal, onde trabalha. “É uma viagem daqui até lá que meu Deus”, o jovem usa dois ônibus para ir e dois para voltar, o trajeto chega a demorar mais de uma hora pelo trânsito.

Legenda: Foto, em cima, Rafael Gomes no ponto. Foto embaixo direita a Felippe Gabriel chamando o ônibus para ir trabalhar. Foto a esquerda, ponto de ônibus em horário de pico.
Rafael não é o único com essa rotina, a diarista Célia Ferreira, 54 anos, moradora do Parque Santos Dumont, próximo ao Aeroporto Internacional de São Paulo passa por problemas semelhantes. Ela utiliza dois ônibus para chegar à região, o primeiro sai às 6h10 com destino ao Terminal Taboão. De lá, Célia pega a linha 361 que conecta o Terminal ao Terminal Vila Galvão e possui parada na Avenida Dr. Timóteo Penteado, em Torres Tibagy, onde trabalha. “Uma hora e meia por aí, é um pouco cansativo”, afirma. Para ela, a espera entre os veículos costuma ser de cerca de 20 minutos.
Um censo feito pelo IBGE em 2022 compilado pelo Observatório de Políticas Públicas de Guarulhos conta que cerca de 40,15% dos moradores da cidade utilizavam ônibus para chegar ao trabalho, uma experiencia compartilhada por moradores de todos os bairros da cidade. Uma das principais reclamações é a inconsistência e intervalo entre os ônibus. Célia conta que, apesar de ter percebido alguma melhora recente nos atrasos, a frequência continua sendo um problema. “Tinha que melhorar mais, né? Eu acho que tinha que ser mais frequente, né? Demora muito o ônibus. Demora, demora”, relata.
Para Rafael, a espera pode ser ainda maior. Segundo ele, o ônibus que utiliza para chegar ao trabalho costuma levar cerca de 30 a 40 minutos para aparecer. Na volta, entretanto, a viagem pode se prolongar por mais de uma hora. O próprio diz ter aguardado o coletivo no Terminal Taboão em mais de uma ocasião. “Fiquei esperando lá no Taboão quase duas horas, a pé. Em pé”, lembra. A espera interfere diretamente na rotina do jovem. De acordo com o costureiro, a frequência irregular dos ônibus faz com que os passageiros precisem considerar o tempo de atraso para não perder compromissos.
Para os usuários que utilizam os ônibus diariamente, o problema não é apenas chegar ao destino. Uma pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), revelou que 18,6% dos trabalhadores de regiões metropolitanas levavam mais de uma hora por sentido para chegar ao trabalho. O instituto aponta que o tempo perdido nos deslocamentos de trabalho é um importante indicador de qualidade de vida, pois quanto maior o tempo de deslocamento, menor é a disponibilidade para outras atividades.
As dificuldades não se limitam ao intervalo entre as viagens. Para quem passa longos períodos dentro dos coletivos, a lotação se transforma em outro obstáculo. É o que relata Felippe Gabriel, morador de Jardim Adriana, em Guarulhos, que viaja diariamente até Torres Tibagy, de onde pega um ônibus intermunicipal para trabalhar em São Paulo. Ele realiza o deslocamento há cerca de um ano pois precisa chegar até o Terminal Tietê onde segue de metrô até a Barra Funda. Ele afirma que a lotação é constante. O trajeto chega a levar de 1h a 1h30, “Todo dia ele tá lotado, todo dia eu vou de pé”, conta. Segundo o jovem, em algumas situações passageiros acabam se sentando nas escadas ou no chão. “A gente tá cansado, né? O dia inteiro de trabalho, andando para lá e para cá, a gente quer descansar.”
Os passageiros também relatam sobre a condição dos veículos que atuam nas rotas, “As infraestruturas dos ônibus, que é precário pra caramba e a passagem? R$ 6,20 dói na alma, ainda bem que eu não pago” relata Rafael ao ser questionado sobre a qualidade dos transportes. Uma pesquisa feita Artesp revelou que 17.481 veículos foram fiscalizados desde 2023 com objetivo de garantir a qualidade dos serviços e a segurança dos usuários que realizam as viagens. Os resultados das operações foram de 4.228 autuações, 327 veículos retidos e 730 removidos para os pátios. Felippe também reclama do desgaste físico ao permanecer muito tempo no ônibus. Com quase 1,90 metro de altura, ele afirma ter dificuldades pela falta de espaço nos veículos. “Eu saio do ônibus cansado. Então, o que me cansa não é o trabalho fisicamente, é o ônibus”, diz.
A Prefeitura de Guarulhos afirma que vem promovendo a renovação da frota. Em março de 2026, a administração municipal informou a incorporação de mais 76 ônibus, chegando a 96 veículos novos adicionados naquele ano. Os coletivos fazem parte do Programa Geladão e contam com ar-condicionado, entradas USB e recursos de acessibilidade. Segundo a Prefeitura, a renovação também busca reduzir falhas mecânicas e aumentar a regularidade das viagens.
Os desafios sofridos pelos passageiros são constantes e o debate já alertou as autoridades. Torres Tibagy está inserido em uma cidade cuja própria política de mobilidade reconhece a necessidade de melhorar a integração entre bairros e ampliar a qualidade do transporte coletivo. O Plano de Mobilidade Urbana prevê, entre suas diretrizes, a reorganização da rede, o monitoramento do sistema e a qualificação do atendimento aos usuários. Apesar disso, os esforços são mínimos comparados aos problemas enfrentados pela população.
Enquanto as políticas públicas avançam lentamente, moradores e trabalhadores da região continuam medindo o transporte pelo tempo que passam nos pontos e dentro dos veículos. “Eu queria ter mais essa acessibilidade em relação a ir sentado, um pouco mais confortável”, afirma Felippe e desabafa “Espero uma melhora, de verdade”.




